Quando cuidar começa a adoecer quem cuida Ninguém prepara uma filha para o dia em que ela deixa de ser apenas filha e passa a ser cuidadora. As pessoas enxergam a idosa na cadeira, na cama, na fragilidade. Poucos enxergam quem está por trás, acordando cansada, dormindo culpada e vivendo em estado permanente de alerta. O que ninguém vê é que, aos poucos, você deixa de existir. Você interrompe uma conversa porque alguém chamou. Interrompe uma refeição porque alguém gritou. Interrompe um sonho porque a responsabilidade não espera. E um dia você percebe que começou a responder mal para quem não tem culpa. Que perdeu a paciência com os filhos. Que já não consegue sorrir como antes. Que vive tensa, ansiosa e irritada. Não porque deixou de amar. Mas porque está esgotada. Existe um tipo de cansaço que o corpo sente. E existe outro, muito mais cruel, que acontece quando a mente não consegue mais descansar nem por alguns minutos. É um desgaste silencioso. Um luto diário pela vida que você precisou colocar entre parênteses. Muitas cuidadoras vivem isso caladas. Algumas sentem vergonha de admitir que estão no limite. Outras têm medo de serem julgadas como ingratas, quando, na verdade, só estão implorando por ajuda. Cuidar de alguém não deveria significar abandonar a si mesma. Talvez esteja na hora de a sociedade olhar não apenas para quem precisa de cuidados, mas também para quem dedica a própria vida a cuidar. Porque, quando ninguém cuida da cuidadora, todos perdem. Se você leu este texto e se reconheceu nele, saiba que você não está sozinha.

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